Artista plástico, webdesigner desde 1997, Ronaldo Gazel apresenta a seguir seus cases mais interessantes - projetos criados para algumas das mais importantes agências de Minas Gerais, além de entrevistas, participações em matérias jornalísticas, palestras ministradas e, finalmente, seus trabalhos em artes plásticas/projetos experimentais.
domingo, 1 de outubro de 2006
ÍCONES - Participação de Ronaldo Gazel em matéria da Revista Webdesign:
1 - Como podemos definir um ícone?
É impossível olharmos para alguma coisa e não percebermos, ainda que de modo inconsciente, algumas propriedades dela. Por propriedades entendam-se valores semióticos dos mais diversos tipos, de natureza obviamente mimética, que permitem ao nosso ser a categorização da coisa observada em uma escala de valores, que se comporta como o raio de uma circunferência, que vai da periferia (memória mais 'distante') até o centro (memória atual, o 'agora') do 'ser'.
Um ícone é a palavra usada para designar formas (de todos os gêneros) que suporte uma composição específica de valores que as torna muito especiais - e, ainda mais importante - que transforma o ícone em um 'meme' coletivo, um 'dna' de memória que é compartilhado e propagado em um grupo de pessoas. Um ícone 'universal' é aquele que consegue se propagar em qualquer (virtualmente) grupo social - mas que, por serem tão significativos, acabam se tornando clichês, como o desenho de uma lâmpada para significar uma boa idéia; o ícone 'ideal' é aquele que consegue ser completamente compreensível, substituindo uma palavra ou um grupo de palavras com os adicionais semióticos não-expressáveis por elas; e o ícone 'farofa' é o ícone que não dialoga, e está sempre equivocado. É dado ao monólogo e rapidamente é desprezado por nós, usuários.
2 - Existe alguma diferença ou a função dos pictogramas no mundo real e dos ícones no mundo virtual são as mesmas?
Alguns símbolos, como o sinal vermelho, uma caveira, a placa de contra-mão, ou de proibido parar, estão - voltando à analogia de uma escala de valores radial, que se movimenta da superfície para o centro - localizados em uma área muito próxima do centro. E sua percepção - ou melhor, a falta dela - pode trazer um feedback negativo dos mais indesejados. Outros simbolos e composições pictográficas, usam formas cujas propriedades gestálticas são explícitas, como o famoso 'splash', que 'valoriza' (na linguagem do varejo, pelo menos) um número a ponto de torná-lo interessante, graças às linhas de movimento que dele divergem para todos os ângulos.
3 - Falando especificamente da função dos ícones em interfaces digitais, você acredita que o seu objetivo esteja mais ligado à memorização de determinadas tarefas ou a estética gráfica?
Existe uma situação em que a criação de ícones é um mero artifício gráfico, que pode ajudar a criar pesos visuais interessantes e equacionar espaços dentro da interface, mas que, como é comum nesses casos, precisam vir acompanhadas de um texto, para reforçar ainda mais seus valores, sua compreensão. É o que eu chamo de ícones 'bonitinhos, mas ordinários': ícones belos e animados - mas nem sempre divertidos e interessantes, ou capazes de substituir uma palavra, algo concreto, sem cair no clichê, por mais que eles se esforcem. Um exemplo rápido: a famosa 'cartinha' na seção contatos: a carta, sozinha, não gera valor positivo (talvez nostálgico), e um texto falando: "contato" já diz o suficiente. Os dois, juntos, formam o embróglio.
4 - A eficiência dos ícones depende do nível de familiaridade das pessoas com as representações que se pretende passar?
Sim, é certo que uma meta fundamental da comunicação visual - especialmente a nossa, a interativa - consiste em oferecer os elementos ideais para um diálogo com o usuário, que vai (ou não), munido dos seus interesses, responder àquele estímulo. Esse é o ideal de um ícone, gerar um sentido psicossomático que sintetize todo um status não-expressável através apenas de uma palavra.
... que possa, inclusive, culminar num sentimento de cumplicide com o ícone - é o caso das grandes marcas, como apple, nike, coca-cola.
5 - Hoje, já podemos afirmar que a internet possui uma iconografia particular (por exemplo: utilizamos a imagem de uma casa para indicar a página principal de um site)?
A casinha, para 'home', é um bom exemplo de ícone 'universalizado' pelo uso. Digamos que apenas o tempo vai dizer se ela vai resistir, até (por exemplo), haver uma troca de paradigmas tal que substitua o conceito de 'home' por outro, como 'hiperespaço'(?) ou algo assim. A arroba, por exemplo, aguentou um bom tempo, mas como ela era um dos pouquíssimos registros gráficos relacionados ao universo da internet, então foi absurdamente utilizada, das mais diversas formas - até que não resistiu.
6 - Por outro, o avanço da tecnologia permite que o desenvolvimento de um site possua uma série de novas funcionalidades. Por exemplo: o espaço para comentários vem se tornando uma função muito comum (e o símbolo de um balão tem sido o ícone mais utilizado para representá-lo). Diante disso, quais são as principais etapas a serem consideradas na hora de se criar um novo ícone (escolha de cores, tamanho, tipo de traço etc.)? Caso possível, poderia citar um bom exemplo nesta área?
Se considerarmos a poesia, uma forma sofisticada de linguagem falada, escrita ou visualizada, podemos também dizer que o ícone também sintetiza - assim como na poesia - um grupo de valores que transcende (a princípio) a própria palavra. Por outro lado, na extremidade oposta, está a sua capacidade de expressar algo absolutamente concreto, com mais intensidade do que a própria palavra! O balão do 'comentários' é um bom ícone, mas não sei ao certo até que ponto ele é mais interessante do que a palavra 'comentários', que é absolutamente concreta, direta, não dá margem à qualquer dúvida. Um balão também pode ser 'chat' - e é por isso, pelo fato do ícone querer representar menos do que ele suscita, faz dele uma 'piada interna', ou seja, só quem sabe, sabe. Se os blogs se consolidarem mesmo como uma ferramenta universal, aí podemos dizer qu
7 - Qual é a melhor forma de testar a eficácia de um ícone na web?
Vox Populi, vox dei. A melhor maneira de se testar qualquer coisa é colocar 'na boca do povo'. Isso inclui todas as formas de pesquisa, seja ela completa e baseada nos mais atuais modelos em voga atualmente, ou uma de pequeno porte, feita com os membros de uma equipe. Ou, na falta de qualquer pesquisa, autocrítica e bom-senso são a única saída. O que não vale, mas que acontece com uma frequência irritante, é a solicitação da criação de iconografias sem qualquer tipo de valor adicional - o que significa um produto cheio de ícones 'bonitinhos mas ordinários'. Isso quando não são uma aberração em todos os sentidos. Certa vez, um cliente de um amigo (cujo nome obviamente não revelarei) solicitou a criação de aproximadamente 20 ícones para um site. Detalhe: os ícones eram 12x12. Nem no meu saudoso TK90X havia tão pouco pixel pra trabalhar! Sugeri a ele que o site fizesse uma campanha publicitária distribuindo lupas...
8 - O site GloboEsporte.com é um bom exemplo no uso de ícones, ao utilizar os escudos de times de futebol para indicar as seções específicas de cada um deles. Dentro de um site, quando se nota a necessidade de criar um ícone para que o usuário consiga realizar determinada função?
Os escudos de time são um dos 'filés' da iconografia, porque normalmente já nascem encapsulados, condensados em uma área de máximo aproveitamento e peso ideal, que permita uma gama de aplicações que nem mesmo o processo de criação de logotipos prevê. Por isso arrisco-me a dizer que é relativamente mais fácil separar perfis de usuário por áreas graficamente identificáveis com ícones universalizados, como no caso dos times de futebol, do que separar usuários com perfis mais sofisticados, que abranjam um grupo de interesses muitas vezes até heterogêneos ou que sejam intimamente relacionados, mas que a princípio, não consigam ser sintetizados por uma símbolo já universalizado (apropriação e metaforização). Esses últimos são o grande desafio. A última vez que me deparei com símbolos desse tipo foi há aproximadamente três anos, no site www?
9 - Quais são as vantagens (economia de espaço da interface, agilização da navegação etc.) e desvantagens (complexidade, poluição visual etc.) no uso de ícones em projetos de sites?
Alguns ícones já universalizados pelo uso da internet, como a pasta, ; e outros já foram tão usados que caíram em desgraça, como a famigerada arroba. Sendo assim, o critério para uso de ícones é o mesmo para a construção dos demais elementos da interface: é preciso coerência.
10 - Qual bibliografia você indicaria para o profissional que quiser encontrar mais informações sobre esse assunto?
Existem bons livros sobre semiologia, sobre Teoria da Forma, design. Uma vez que iconografia está intimamente ligada, de um lado, às questões antropológicas e psicológicas; e de outro, aos mecanismos puramente visuais, relacionados à gestalt,
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Um comentário:
Ronaldo para mim, é mais um gênio! Espero que ele consiga o brilho que muitos gênios não obtiveram...
Ele como artista tem muitas facetas e admiro todas elas.
Parabéns, Ronaldo!
Tenho fé em você, kid.
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