ARTE e WEBDESIGN - Entrevista para a Revista Webdesign - by Ronaldo Gazel
1 - Por que e como o conhecimento da história da arte vai servir como base para a atuação de um designer na internet?
A arte reflete o tempo em que é produzida. Conhecer a história da arte, ainda que apenas alguns pontos dela, é fundamental para entendermos os questionamentos e paradigmas que permearam as épocas, e a as respostas que o homem/artista deu (e ainda dá) a elas. Na verdade a história da arte, estando intimamente ligada à literatura, à filosofia, à antropologia, à história, à religião, enfim, a um sem-número de expressões humanas, acaba tendo uma importância fundamental na vida de todas as pessoas. Quanto mais longe da arte, mais perto do controle, do sistema, do pensar 'massificado', pasteurizado.
É preciso entender a história do design, para ser um designer mais completo, mais consciente, mais coerente. É preciso saber como surgiu o movimento do design; saber como o relacionamento dos objetos e do ser humano foi se sofisticando com o passar do tempo. É importante porque uma interface é uma superfície de trabalho, de uso. E é por isso que somos designers da web, projetamos, como um designer projeta um espremedor de suco, ou uma cadeira, interfaces que um grupo de pessoas certamente vai USAR. E é aí que nos encaixamos na história, e passamos a fazer parte dela.
Por outro lado, no que se entende por design hoje, dentro de uma ótica artística, é plenamente possível desenvolver projetos de utilização alternativa, que podem ser altamente subjetivos e próximos até do anti-uso. Nesse cenário se enquadram os experimentalistas, que buscam um tipo de reação mais sensorial, de semânticas totalmente específicas, heterogêneas, dentro de universos distintos, sejam eles culturais, comerciais, didáticos, humanistas, matemáticos, psicológicos, estéticos.
O webdesigner que pára de olhar o mundo com o olhar difuso, amplo, capaz de compreender várias realidades, corre o risco de virar uma engrenagem na linha de produção de sites, no melhor estilo 'corte e costura' de HTML. Vai passar a apertar um parafuso, ao invés de compreender toda a engrenagem. E é por isso que devemos, além de estudar a história da arte, firmar nossa posição como artistas webdesigners - mentes capazes de compreender as expressões artísticas não apenas como uma superficialidade decorativa ou bela, e sim, uma interface capaz de comunicar utilizando modelos não-usuais, linguagens não-verbais, fora do 'logos', da razão cotidiana; capazes de questionar o que não se quer questionado; de propor o que não se quer proposto; de causar o estranhamento, dando lugar ao controverso. Enfim, capazes de compreender o mundo pictórico muito além da forma.
2 - Ao longo do tempo, os movimentos artísticos vêm exercendo uma grande influência na produção do design. Em termos de internet, talvez um dos melhores exemplos estejam nos sites das Havaianas (www.havaianas.com.br) e algumas campanhas on-line da Coca-Cola na França (www.coca-colablak.fr e http://secure.coca-cola.fr). Quando a arte deve ser aplicada em benefício do design na web?
A arte pode trazer enormes benefícios para o webdesign, sendo uma linguagem não-verbal, capaz de despertar naquele que tem contato com ela, percepções e diálogos muito mais sofisticados (ou simples, diretos!) do que as narrativas e approachings das interfaces focadas em percepções utilitárias puras. E o maior desses benefícios se chama coerência estética. Essa coerência pode ser percebida no excelente site das Havaianas, evidenciando o fato de que a ousadia em termos de linguagem, da difusão de valores semióticos sutis, fora do padrão midiático tradicional de informação, dispostos juntos a uma feliz combinação de fatores estéticos e expectativas sensoriais (revertidas de alguma forma em resultados positivos), transforma o lugar-comum dos pressupostos, das 'doxas' pictóricas, dos pré-conceitos estabelecidos todos os dias. Por isso mesmo, sites como esse, que felizmente têm surgido em número cada vez maior, fazem tanto sucesso: eles mostram que o caminho da arte no webdesign é muito promissor, e dá resultados.
3 - Sobre a interação entre design e arte, podemos afirmar que a principal diferença entre estes dois campos do conhecimento seja o compromisso com o público, ou seja, o designer tem compromisso com o público e o artista vive sem a necessidade e a pressão de fazer concessões?
O perfil do artista hoje não pode ser traçado de modo simples, porque na pós-modernidade - período no qual vivemos, e que resgata todas as motivações e contradições do passado recente (movimentos modernos) em um timing assombrosamente rápido - há uma tal especificidade de propostas, conceitos e estéticas que permite ao artista, virtualmente, qualquer tipo de relação com o público, inclusive compromisso e descompromisso.
Mesmo que uma proposta, em princípio, nos conduza a uma percepção romantizada do artista, como se ele não estivesse se importando para o público, não sofresse qualquer tipo de pressão, isso na verdade pode mostrar o contrário: a adequação do artista a nichos de mercado preparados para receber/consumir as suas características sui-generis, ou seja: para o artista, há um mercado em qualquer situação. Veja que paradoxo, digamos, quase zen-buddhista: o artista busca gerar um reflexo altamente pessoal; uma linguagem, uma 'poiesis' própria, buscando o coeficiente de 'arte' em um trabalho artístico, seja ela um vídeo, uma pintura, uma performance, um website - linguagem essa que, apesar de desuniversalizada na origem, tende a se comunicar com o senso-comum, tanto na aceitação, quanto no estranhamento.
Já o webdesigner normalmente trabalha com fins utilitários extremamente bem definidos, e por isso a pressão por coerência artística passa a ser mínima, em favor de uma adequação máxima aos padrões estéticos aceitos por um grupo majoritário - ou pseudo-majoritário; padrões estéticos que são verdadeiros 'lugares comuns' . Então voltamos à história da 'doxa', do 'ouvi dizer', da informação não-questionada e não-questionável. Quanto menos vontade de reavaliar os valores e conceitos tidos como inexoráveis, mais subvalorizada será a profissão de webdesign, pois a pressão que passa a se exercer sobre nós, webdesigners, acaba sendo a mesma que um carregador de caixas: produção braçal, e não mental.
4 - A interação homem-computador é considerada por especialistas mais fria e distante, além de criar um sentimento individualista entre as pessoas. Buscar referências nos movimentos artísticos pode ser um caminho para proporcionar emoção e afinidade dentro de um projeto digital?
Um cão, um cavalo, um boi, são incapazes de realizar gestos e ações que não sejam voltadas para sua própria existência física, sua preservação. Já o ser humano é capaz de observar, gestualizar, modificar a natureza pelo simples prazer estético, pela necessidade natural de mimese, sem qualquer relação com a sobrevivência.
Quando a interface digital (homem-computador) passa a desconsiderar ações e reações menos utilitárias, aumentando o caráter prático em detrimento do sensorial, não-prático, corremos o risco de nos robotizarmos, perdendo a habilidade de questionar, de trocar pontos-de-vista, de negar o utilitário e promover o puramente estético/existencial.
Por isso, sim, é louvável buscarmos referências nos movimentos artísticos para criarmos interfaces um pouco mais humanas, que tornem o ato de interagir um processo cada vez mais semelhante ao agir natural do homem.
5 - No livro “Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro”, Gilberto Mendonça Teles explica que a técnica da pintura cubista procurava “apresentar a realidade através de estruturas geométricas, desmontando os objetos para que, remontados pelo espectador, deixasse transparecer uma estrutura superior, a forma plástica essencial e verdadeira da beleza”. De que forma esta técnica pode ser utilizada pelo design para web? O site internacional da Leo Burnett (www.leoburnett.com) pode ser apontado como um exemplo?
O cubismo representa o atonal, um universo no qual o simbolismo é completamente descartado, cujas formas não remetem ao mundo e a seus símbolos, mas sim, à personalidade pura do geométrico. Alexander Calder, com seus mobiles, foi o artista que mais conseguiu se aproximar desse ideal cubista, na minha opinião: suas esculturas remetem a um mundo absolutamente próprio, que não dá margens a interpretações baseadas nas questões do cotidiano.
O site internacional da Leo Burnett, apesar gerar uma ótima sensação de profundidade, não tem uma influência cubista acentuada, já que, cognitivamente, ele é permeado por símbolos e letras, para a compreensão do conteúdo. Um site genuinamente cubista haveria de ser muito abstrato, com o mínimo de textos e imagens reais. Ainda que fosse em uma camada específica da interface, separando a arte cubista do conteúdo publicitário.
6 - Considerando o contexto político-econômico atual, permeado por guerras, intolerância religiosa e injustiças sociais, é possível imaginar um resgate de conceitos aplicados pelo movimento Dadaísta como referência para projetos interativos?
Se analisarmos bem, todos os períodos da história foram permeados por esse tipo de acontecimento. Sempre houve muitas guerras, muita intolerância - e para cada época, uma contestação própria.
Os artistas modernistas eram naturalmente 'engajados'. Mas nos dias de hoje, na dita pós-modernidade, tudo é fragmentado - inclusive a crítica social. Encontram-se vários exemplos de movimentos de caráter contestador intrínseco, que fazem a crítica dentro de cenários específicos, quase nunca universais. O artista pode não falar da guerra como fez Picasso ao pintar 'Guernica' - até porque o impacto de uma pintura como guernica nos dias de hoje, seria outro (afinal, muita água passou desde então) - mas ele critica a seu modo, uma crítica que se desuniversalizou desde a pop art mas que se mantém viva em movimentos como o 'sticker art' ou o 'street bombing' - a arte urbana que envolve tantos artistas de diferentes áreas, que pintam, graffitam pela cidade, em superfícies autorizadas (ou não!), levantando questões urbanas ou simplesmente rasgando o cinza das ruas com cores vivas, intensas, volumes e tipografias sui-generis. Na internet, se houvesse um 'street bombing', seria algo como uma área completamente livre dentro das interfaces (ou invadida!), que pudesse ser preenchida com arte. E de certa maneira eles também escandalizam, ao seu modo, como pretendiam os dadaístas. A diferença é que o engajamento é desnecessário, o mais importante é desenvolver a linguagem.
Quanto ao resgate do Dadaísmo em projetos interativos, sim, é sempre uma ótima idéia! Afinal, dadaísmo é sempre bem-vindo em qualquer situação, justamente para nos deslocar da linearidade dos ponteiros do relógio, do logos, do racionalismo. O dadaísmo é um movimento absolutamente atual, contestador em essência, e seus 'jogos'', experiências como o 'cadáver delicioso' - espécie de colcha de retalhos de palavras, frases e desenhos, ajudam-nos a reconstruir o pensar e o perceber. Um 'cadáver delicioso' é um ótimo ponto de partida para a criação de um projeto interativo digital dadaísta.
7 - Acessando o site da agência Modernista! (www.modernista.com), somos remetidos aos anos 20, período no qual o mundo assistiria ao ápice do surrealismo, considerado um dos últimos movimentos de arte moderna. Como a aplicação do inconsciente pode ajudar no processo de criação de uma interface digital (http://pt.wikipedia.org/wiki/Surrealismo)?
Esse site da Modernista! é um bom exemplo de como se comporta a arte nos dias de hoje, tanto no meio internet, quanto em qualquer outro. É perfeitamente possível voltar no tempo e fazer uma releitura dos valores peculiares que formam o cerne de cada 'manifesto' do período moderno. A diferença é que, naquela época, havia a nítida impressão de que o universalismo das propostas poderia ser percebido e vivenciado como uma verdade, uma razão, sem prever suas contradições, sua transformação em outras verdades, tão efêmeras quanto o próprio homem.
No período da modernidade, havia uma visão romantizada, de um mundo inteiro para ser conquistado pela arte, ainda que por caminhos completamente opostos, como os futuristas italianos, que traziam o fascismo como uma grande virtude, um caminho; e o cubismo, que desconsiderava qualquer valor do mundo real, autosuficiente em sua atonalidade. Eles não poderiam existir sozinhos como verdade maior, como comprovou o tempo, mas foram absolutamente fundamentais, como todo movimento dentro da história. E se descobriu, findando-se a modernidade, que nenhum dos movimentos estava mais ou menos próximo de uma 'verdade' artística - justamente porque essa 'verdade', ao ser encontrada, logo estaria superada.
Podemos então, conhecendo as características, as razões estéticas de cada movimento moderno, entender suas circunstâncias, seus cenários - não simplesmente reviver aquilo - mas criar uma relação entre uma questão atual vista sob aquela ótica. Essa é a receita para se beber da fonte moderna e criar algo novo. E é por isso que não basta ter o conhecimento 'dóxico', superficial, sensorial, sobre uma época (apesar disso ser fundamental), entender sua picturalidade, suas formas, seu movimento, sua disposição, seu equilíbrio. É preciso conhecer a história da arte e ver que nenhum estilo surgiu ao acaso, mas sim, possuem origens claras - e desdobramentos que chegam até os dias de hoje, consequentemente. A partir desse estudo, fica muito fácil associar um projeto conceitualizado hoje, a uma estética moderna, seja qual for o movimento: cubismo, surrealismo, expressionismo, etc.
No caso do surrealismo, é preciso mergulhar de cabeça na psicanálise, e estar pronto para ir além da linguagem comum, das percepções concretas, sensibilizando-se para os reflexos do inconsciente como feedback emocional para a interface - o que parece bem subjetivo, mas plenamente possível com interesse e muito estudo.
8 - No livro “Iniciação à História da Arte”, da Martins Fontes Editora, H.W.Janson e Anthony F.Janson apontam que “ao contrário do Dadaísmo, a Pop Art não é motivada pelo desespero ou animosidade contra a civilização atual; considera a cultura comercial sua matéria-prima, uma fonte inesgotável de material pictórico, mais do que um mal a ser combatido”. O uso da cultura de massa, tão emanada pelos seguidores da Pop Art, é uma linha conceitual que pode ajudar a aproximar os ambientes digitais de seu público-alvo?
A Pop-Art foi o último dos grandes movimentos modernos, e sua contribuição mais importante para a história da arte, ao meu ver, foi a mudança de percepção a respeito da apropriação e transformação de 'memes' coletivos, ícones de massa, considerando uma 'cultura Pop'. A Cultura pop, por sua vez, surgiu graças aos métodos industriais de criação e produção pictórica, à prevalescência da imagem de massa, em detrimento do conteúdo (também de massa, mas de segunda ordem). Os clássicos exemplos 'lata de sopa campbells' e as interferências na Marilyn Monroe e Mao Tse Tung demonstram isso com perfeição. É o início da era do consumo de imagens, à maneira industrial. Que vivemos até hoje, como num 'pop' transgênico e muito acelerado. Poderíamos incluir aqui o Kitsch e o neopop, mas seriam apenas categorizações para as transgenias diversas pelas quais passa a pop art até hoje.
Continuamos consumindo o pop, construindo e desconstruindo sua forma e conteúdo de forma compulsiva, caótica, de modo cada vez mais veloz. Os ícones pop surgem e morrem quase no mesmo instante.
O que mais me atrai na Pop Art é sua possibilidade de 'cheating art', ou seja, de fazer uma arte 'trapaceando', através dos meios de massa - inclua-se nessa categoria o sampling e a intervenção sobre todo tipo de imagem 'lugar-comum', desde logotipos conhecidos por todo o mundo até personagens (humanos ou não) pop extremamente regionalizados. A identificação com os 'memes' acaba por facilitar a transmissão do que está agregado a ela - no caso, a arte. E é justamente nisso que vejo a grande possibilidade de se trabalhar o Pop dentro dos ambientes digitais, aproveitar essa identificação quase insuperável (felizmente, quase) para se fazer ouvir. Uma espécie de comensalismo.
9 - Segundo a Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Minimalismo#Design), o minimalismo representa uma série de movimentos artísticos e culturais ocorridos durante o século XX. Analisando a parte conceitual do movimento (“jogo de volumes e formas que esteja reduzido às suas configurações não mais que essenciais a suas funções”), é certo dizer que a criação e o desenvolvimento de sites focados na usabilidade segue a mesma linha de pensamento? Você poderia citar exemplos de sites que utilizam os ideais minimalistas em sua concepção?
De certa maneira sim, o movimento pró-usabilidade busca enxergar e remover qualquer tipo de ruído dentro da interface, com objetivo de chegar a um coeficiente minimo ideal de uso. É uma ótima causa. O problema é que, assim como o próprio movimento Minimalista (e todos os demais movimentos modernos), o movimento pró-usabilidade, na minha percepção, acaba por acreditar (pela força da doutrina e do hábito) que só existe a realidade do uso, desconsiderando o contraditório - que seria, nesse caso, a corrente experimentalista, e que, na publicidade, poderíamos encontrar dividida em vários sub-movimentos, sendo o mais importante deles o da 'inversão de expectativa' - modo menos traumático de apresentar estéticas pouco usuais a um público heterogêneo, abrangente, valendo-se de um gradiente entre o anti-uso e o próprio uso, deixando o expectador/consumidor transtornado sensorialmente, abalado, por alguns instantes, para, no melhor estilo catártico, trazê-lo de volta ao mundo cartesiano. Pronto, fez-se a mágica.
O mundo está girando numa velocidade espantosa, enquanto escrevo esse texto. Nós também, nossa mente, nossos gostos, nossos paradigmas, estão prontos para mudança, a cada instante. Acreditar numa linha unidirecional em relação ao ideal do webdesign, é pura ilusão. É preciso se considerar o anti-uso, os reflexos da própria frustração e a transformação que ela gera.
Existem também sites que não têm qualquer relação com uma boa usabilidade (no sentido atual a que esse termo remete) mas que usam a estética minimalista de modo primoroso, cada qual a seu modo. Alguns exemplos que posso citar são:
10 - A Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais revela que “a liberdade de experimentação, o retorno às intenções expressivas e o resgate da subjetividade” são algumas das principais linhas de pensamento do Neoconcretismo (http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_IC/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=3810). Diante de sua experiência na área, você acredita que os projetos experimentais on-line ainda são um campo pouco explorado na web? Quais conceitos do neoconcretismo poderiam ser aplicados no design para web?
Em se tratando de webdesign comercial, que precisa se ater a objetivos e regras já muito bem estabelecidas pela publicidade (ou pela gerência de TI), sim. É quando a interface precisa ser o mais racional possível, controlável, categorizada, sistemática. Isso pode ser visto com mais intensidade nas interfaces unicamente funcionais, que de tão sistematizadas, acabam por virar 'monstros' de organização, desumanizando ao máximo a linguagem entre o usuário e a interface.
A habilidade do designer em compreender os princípios dos quais a interface pode - e deve - se utilizar, sem se ater a regras gerais, 'doxas' incontestáveis, clichês pictóricos - que normalmente nos levam a uma pasteurização das interfaces - é que vai fazer a diferença na hora de conceitualizar a proposta. A partir do conceito certo, sem subestimar e nem superestimar o público (e a própria interface), encontraremos o caminho mais interessante, mais adequado aos objetivos (práticos e subjetivos) - pautando-se, dessa forma, por diversos valores semióticos e também por necessidades utilitárias, cada qual com sua maneira de ser avaliada - ainda que o resultado disso seja, esteticamente, um picturalismo abstrato, uma subjetividade irritante (aos olhos do ser cartesiano), contrária aos critérios universais de avaliação atuais. Se esse for o caminho encontrado, é preciso encará-lo de forma corajosa. Isso porque nenhum sistema de análise de interfaces que conheço consegue sair da esfera racional, do empirismo utilitário, até mesmo para lidar com os valores mais sensoriais, menos racionais - quando tratam destes, fazem-no de modo rasteiro.
Tenho em mente que devemos mudar nossa opinião a cada instante, girar em torno da idéia inicial pelo menos uma dezena de vezes antes de nos definirmos pelo conceito final. Assim, por exemplo, se optamos por usar a simplicidade da forma básica, dos planos geométricos simples, podemos pesquisar o cubismo ou o neo-concretismo. O importante é saber o porquê da escolha.
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