terça-feira, 29 de julho de 2008

Entrevista com Ronaldo Gazel - Revista Webdesign - Maio 2008 - Metodologia de Criação - Parte 02

6 - Outra etapa muito interessante é o estudo de referências, no qual você se depara com os caminhos que outros profissionais encontraram para "...vencer desafios em situações semelhantes às que o seu projeto apresenta". Pensando nisso, quais são os limites e os cuidados necessários para que este material seja utilizado apenas como referência e não como cópia de outros
projetos?


Sobre o estudo de referências, costumo dizer que ele se parece com o desafio de se passar por um campo minado. O soldado mais afobado, menos consciente do que acontece ao seu redor, sairá feito doido, apressado, correndo através do campo, criando seu caminho, arriscando ativar uma mina. Existe uma chance dele sair ileso, mas ela é mínima. A atitude mais sensata seria parar um pouco e analisar as pegadas, procurando a trilha de quem passou pelo campo ileso. Mas atenção! Como eu avisei durante do 10EWD, é preciso ser criterioso para interpretar essa história, tomando cuidado para apenas seguir as pegadas de quem atravessou o campo, ileso – e não para subir nas costas! É preciso entender os dilemas e as soluções, compreendendo as pesquisas e os raciocínios que levaram outras pessoas a encontrar soluções análogas às nossas. Muito diferente de colecionar referências com o objetivo simplesmente de copiar elementos visuais – uma estratégia nada recomendada.


As referências do webdesigner não precisam - e nem devem, na minha opinião pessoal - ficar restritas a interfaces. É preciso buscar em livros, em revistas - sejam elas feitas de papel ou digitais; assistir a filmes, vinhetas; assinar o RSS das principais produtoras de conteúdo, de mídia, de animações, baixando demo-reels, transitando pelo maior número de meios que permitam praticar um olhar proativo, atualizando seus bookmarks, recebendo e transmitindo fontes de pesquisa via broadcasting, tentando sentir a todo instante que essas informações não servem apenas para entretenimento ou informação, e sim para gerar o upgrade sensorial de maneira aplicada à vida prática. Caso contrário, se não nos direcionarmos no processo de pesquisa, acabaremos por nos afogar num universo de informações torrenciais que nem sempre contribuirão com nosso desenvolvimento criativo, gerando apenas confusão mental.


7 - Falando ainda sobre o estudo de referências, quais são os diretórios de criatividade que você costuma utilizar na produção de seus projetos?

O Webdesign atingiu uma importância nunca antes vista, com a amplificação do debate filosófico, estético e conceitual sobre os meios e as perspectivas de se pensar, de se gerar conteúdo e interatividade; uma percepção de propósitos, utilidade e usabilidade cada vez mais difundida – e segmentada – diga-se de passagem, com o surgimento de vertentes vão desde os evangelistas da padronização, com seu approaching objetivo e positivo, até os artistas que trabalham com o caos navegacional, sem objetivo universalizado. E tem espaço pra todo mundo, isso é o mais bacana!

Diante dessas inúmeras abordagens sui-generis que o Webdesign nos apresenta, hoje, fez- se necessário que as próprias fontes de referência, antes mais universalizadas, agora se multiplicassem, ramificando-se em nichos próprios, considerando um usuário-colaborador que se pretende promotor das tendências, cada qual com suas premissas e seus objetivos. Um usuário compromissado não apenas com a forma.

Iniciando pela vertente de usuários que tem foco na aplicação de webstandards, movimento que busca o melhor relacionamento, a maior eficiência no lido com a mensagem, passando por aqueles cujo foco é mercadológico, seguindo metas muito particulares, considerando fatores cronológicos e semióticos específicos, chegando até o foco artistico, onde, literalmente, vale tudo em matéria de linguagem e interatividade, o universo de propostas conceituais e estéticas que se apresenta hoje para o webdesigner, é de uma riqueza nunca antes vista. Sagaz daquele que, ao invés de ficar focado apenas na sua área, consiga também entender – pelo menos entender – as realidades dos diversos focos. E é nessa hora que os sites de pesquisa, referências, blogs, e-zines e outras fontes mostram-se grandes ferramentas para compreendermos integralmente o que de fato acontece nas outras esferas criativas, artísticas, comerciais, filosóficas, tecnológicas, que não as nossas próprias.

Bruce Lee já dizia que se um jogador de tênis resolve jogar ping-pong para aprimorar seus reflexos, ele não vai ser chamado de “traidor”. Assim como o webdesigner pode perfeitamente imergir no universo do design gráfico, por exemplo; da mesma forma como o webdesigner focado em linguagem publicitária pode – e deve – buscar entender como pensam os teóricos e arquitetos da informação em relação ao presente e ao futuro do webdesign, sem viés comercial. Apenas para exemplificar.


8 - Uma das vantagens da aplicação do esforço sinergético envolve sua flexibilidade tanto para a supressão de determinadas etapas, como também a possibilidade de inclusão de outras. Quando isso costuma acontecer?

É preciso assumir o processo como um caminho em constante mutação, revendo tais atividades diariamente, a todo instante. É como se nos transformássemos num radar de nós mesmos, entendendo as nossas próprias mudanças internas e externas, e a partir delas, desenvolvêssemos as novas “features”, as novas etapas formadoras da nossa metodologia organo-funcional. Por exemplo: um projeto que possua pouco prazo para desenvolvimento, muitas vezes demanda trabalhar com apenas Apresentação, To Do List e Layout; outros que possuam um comprometimento estético, uma abordagem mais artística, necessitam de estudos detalhados de referência, de storyboards, da criação de scratches; porque, como já dito, o “esforço sinergético” é uma dessas metodologias que só faz sentido se for completamente adaptada aos nossos perfis práticos e psicológicos.

É preciso também atualizar a própria maneira de se trabalhar dentro de cada módulo, atualizando-se sempre. Por exemplo: à época da palestra, em 2005, eu usava o Outlook Express durante quase todo o tempo, por isso usava sempre o template de mensagem para registrar idéias, e usava as estruturas das pastas para organizar os dados; hoje em dia não faço mais assim, utilizo os Google Apps, especialmente o Gmail e o Google Docs, que permitem trabalhar de maneira colaborativa, ampliando toda a maneira com que se percebe e com features que, há 3 anos, pareceriam algo distante.


9 - Como qualquer outro campo do conhecimento, devemos procurar sempre estimular a criatividade para se buscar a evolução desta prática. Quais são os exercícios de criação que você costuma utilizar?

Primeiramente, um exercício permanente: buscar um posicionamento critico diante da realidade, da arte, do comportamento, da idéia geral de “belo”, de “bom”, de “ideal”, usando essa “Insatisfação” para gerar novos insights, novas conexões não-usuais, no dia-a-dia.

Outro exercício permanente, que é na verdade uma postura mental, é assumir o processo criativo como um processo catártico, emocional, e não apenas racional. Não adianta comprar um livro explicando o passo-a-passo da criação de um site de sucesso, É preciso se sensibilizar, entender razões, indo até, se precisar, na sua própria “caixa de pandora”, revirando o baú onde guardamos sentimentos dos quais temos medos, questionamentos sobre nós mesmos que não queremos encarar. Repetindo: não há ganho, sem “dor”.

Também ajuda bastante a criar uma sensação de mobilidade, sair da rotina de maneira programada, sincera, habitual – porque idas ao cinema, saídas a boates, a museus, a exposições, a mostras, feitas de “urgência”, quando estamos em crise, nos faz projetar falsas expectativas, e o tiro pode sair pela culatra: a solução acaba por aumentar ainda mais o problema.

Além disso, relacionei algumas atitudes que eu pratico e que costumam gerar excelentes resultados. Vamos a elas:

Praticar o olhar analítico, percebendo as propriedades visuais das imagens, no dia-a-dia – temos a tendência em 'fechar' a Gestalt rapidamente, atitude responsável por 'pasteurizar' muitas criações nossas. Precisamos ser hábeis em mudar de paradigma perceptivo para explorarmos novas possibilidades de gestalt além das óbvias - e para isso vamos desenvolver o olhar analítico - sem deixar de trabalhar o olhar livre, criativo - até porque a habilidade analítica nos deixa muito mais à vontade, seguros para 'soltar a mente' no olhar criativo, livre. A pressa acelera ainda mais a velocidade da gestalt - é preciso desacelerar esse processo, aumentando o tempo de percepção da imagem – desprendendo-se do automatismo sensorial e enxergando novos valores, ainda que a partir de uma imagem velha.

Identificar posições etnocêntricas e praticar a visão global É fundamental se posicionar como radar de pensamentos, idéias e tendências, fazendo o máximo esforço para compreender a diversidade em que vivem as pessoas, principais razões do webdesign, da comunicação, da arte. É preciso compreender as realidades alheias, por mais que, muitas vezes, não concordemos nem compartilhemos de algumas atribuições predicativas (ruim, errado, certo, bom, mau, etc) a respeito de qualquer objeto, ser ou situação. É assim que nos transformamos em poderosas antenas de percepção sensorial/criativa, gerando nossas próprias opiniões, mas aceitando que nossos valores, nossas idéias, não são nem piores e nem melhores do que as dos outros, e sim, diferentes.É importante nos policiarmos para buscar compreender as situações e idéias das quais discordamos ou nutrimos alguma aversão, tentando vê-las do ponto de vista de quem as defende.

Laboratório usando interfaces colaborativas: criar comunidades o mais impensáveis possíveis e vídeos com potencial viral, no YouTube. Aproveitar a facilidade e a visibilidade desses ambientes para projetar experiências livres

Registro de qualquer idéia ou fragmento: Nunca usar o computador SEM um arquivo aberto em algum editor de texto ou email, para evitar a preguiça de abrir o software, achando que a idéia ou fragmento serão percebidos novamente. Idéias e observações interessantes sobre qualquer assunto do nosso interesse pessoal e profissional devem ser registrados. O próprio ato de anotar cria vínculos mnemônicos entre fragmentos de idéias, aumentando a habilidade de produzir novos fragmentos, que vão dar origem às grandes e boas idéias.

Imagens sensoriais: Registro e observação, análise, de imagens de qualquer natureza, baixadas no decorrer do dia; imagens que gerem interesse suficiente para que as baixemos, não estando relacionadas necessariamente a projetos. Isso vai gerar reflexos mnemônicos pouco previsíveis quando retornarmos a elas, posteriormente.

Brief-feeding - Leitura do material por 3 vezes – imersão e percepção total do material primordial de trabalho.

Interface updating: pesquisar semanalmente novas extensões para o Firefox, para o Gmail, enfim, para as interfaces que você utiliza regularmente, mantendo-se atualizado, aproveitando os novos facilitadores que surgem a cada dia.

Tomada de posições \ lapidar opiniões em “estado bruto’ - Uma das etapas mais importantes do esforço sinergético é, sem dúvida, o estudo de referências. Mas como fazer um bom estudo de referências se não somos hábeis em tomar posições? Quero dizer que opiniões como “acho bacana” ou “esse layout é legal”, expressam sentimentos válidos, mas se esses são os únicos atributos que você encontra em web design, design gráfico ou artes plásticas, está mostrando que esses seus sentimentos estão em estado bruto, ou seja, aquela comunicação visual ‘mexeu com você’, mas você não encontra mecanismos para desconstruir essa impressão, definindo exatamente O QUÊ mexeu com você e PORQUE. Design pode ser muito bacana por razões bem definidas, e isso é importantíssimo para nós que criamos e desenvolvemos.

Para apurarmos nosso senso crítico visual, é fundamental que nos comportemos como artistas. O design é capítulo fundamental na história da arte, e nós, que vivemos a pós-modernidade, fazemos parte dessa história. Diferente das artes plásticas, que trabalham focalizando a expressão do artista, o design, ou ainda, o webdesign é um desafio diferente: o artista, nós, precisamos distribuir nossa atenção para os aspectos práticos, comerciais ou utilitários, enquanto expressamos nossa arte. No dia-a-dia das agências, infelizmente, os webdesigners não têm tempo para essa auto-avaliação e acabam por recebem o rótulo de ‘peões digitais’, isto é, uma força de trabalho capaz de operar software. Se for o seu caso, puxe o freio de emergência AGORA e comece a ver o artista que existe em você, não apenas o profissional.

Estudo teórico / prático de assuntos relacionados ao webdesign/arte, por rodízio (ex: segunda-feira: tipografia / terça-feira: história da arte, quarta-feira: programação Flash, etc)

Leitura livre recreativa ou vídeo por pelo menos 30 minutos (videoarte, literatura, poesia, quadrinhos, romance, qualquer tipo de leitura de qualidade);

Aprender a Amar o que deve ser amado, sem se apegar ao objeto/pessoa/situação amado, e com isso, amar sem medo. Isso nos dará confiança para perceber novas possibilidades na vida, não apenas visuais, com tranquilidade.


10 - A tecnologia surge como uma grande aliada no processo de criação na web. Porém, é comum sua aplicação tornar muitos projetos padronizados e pouco originais. Existe um limite no uso da tecnologia e de que maneira ela pode contribuir efetivamente para alcançarmos a criatividade?

A tecnologia é curiosa: se por um lado ela traz consigo um pressuposto “progresso”, pois facilita, agiliza, otimiza os processos humanos, por outro lado ela se alimenta da própria obsolescência, já considerando que no momento em que é lançada ao público, ao mercado, já está obsoleta. Por isso mesmo não devemos ser “escravos” de nenhuma tecnologia específica, mas sim, reconhecer com muito bom-senso suas limitações e suas vantagens em relação aos nossos propósitos criativos e comerciais. As soluções conceituais e tecnológicas universalistas geralmente são restritivas, pois presumem uma adequação da interface ao maior número de pessoas simultaneamente; por outro lado, as soluções especifistas, por natureza, exclusivistas, por causa de seus focos bem-definidos acaba por canibalizar uma parte do público quando não oferece vias alternativas de comunicação, gerando dead-ends.

A tecnologia, é como “um dedo apontado em direção à lua”, diria a sabedoria oriental – “não se concentre no dedo ou perderá toda a visão celestial”. A dialética em torno dos meios, dos métodos, deve ser constante. Não devemos ceder á tentação das soluções perfeitas, fáceis, e sim, manter uma percepção constante da nossa própria realidade, aumentando a capacidade de se fazer escolhas dentro do inesgotável arsenal tecnológico.