
1 - A criatividade é considerada requisito básico para alcançarmos um diferencial em um projeto. Em tempos digitais, quais seriam os parâmetros para definirmos algo criativo na web?
Antes de debatermos sobre os parâmetros do que é criativo, permita-me falar sobre o lugar-comum, o que não causa surpresa; sobre as idéias, imagens e objetos aos quais somos indiferentes, das idéias recicladas à exaustão, das “soluções fáceis” – clichês de todos os tipos, chavões, ´gags´ prontas; Do desgaste tipográfico, de recursos pictóricos hyped que, no dia seguinte, estão surrados, rotos, maltrapilhos....
Todos esses maus atributos estão diretamente relacionados a uma só palavra: saturação; Saturação da linguagem, das estéticas, que seguem uma via inevitável de ascensão e queda, de amor e desprezo – fenômenos que se sucedem de maneira extremamente acelerada. Nesse cenário, torna-se evidente a dificuldade de se criar algo que tenha personalidade própria, que se sustente por mais tempo do que o esperado; que consiga, diante do consumo e regurgitação vorazes do público, conquistar um outro patamar. Não é nada fácil ter certeza das estratégias e objetivos que escolhemos diante de tamanha complexidade, das trocas de personalidade editorial (quem era expectador, agora também passa a ter sua própria audiência), do fluxo cada vez mais frenético, de dados; fatos que nos fazem questionar a todo tempo quem são os personagens na cadeia de consumo criativo.
Precisamos, para tanto, antever a percepção da mensagem, por parte do nosso público, compreendendo totalmente sua personalidade e seu papel no mundo digital - e com essa habilidade, ir além da gestalt, do sensorialismo puro da forma, mudando o ponto de vista sobre o que consideramos o ‘lugar comum’, considerando os clichês que deverão ser quebrados, em cada tipo de abordagem, para, criarmos, finalmente...o imprevisível!
O imprevisível que feche a gestalt, comunicando por uma via não-usual, trazendo satisfação para quem recebe a mensagem, enquanto, na outra ponta, faz o responsável pela ‘solução criativa’ obter prazer ao cumprir a tarefa, reafirmando-se cada vez mais como profissional e aumentando a sua crença.
Estamos habituados a um automatismo funcional do pensamento e da linguagem; digo funcional, porque sobrevive latente, dentro de nós, o mesmo instinto de sobrevivência que nossos antepassados, nas cavernas, possuíam. Sentimos necessidade da linguagem, no dia-a-dia, para nos comunicar da maneira mais rápida e mais prática possível. Caso contrário, a má comunicação irá se refletir em problemas de natureza material, funcional. Então nos apegamos a um modelo automatizado de linguagem. Romper esse modelo é o objetivo da criatividade, seja qual for o meio em que se manifeste.
Podemos dizer, assim, de forma resumida, que a criatividade é um mecanismo especial, diria lúdico, de se trabalhar a linguagem além do lugar comum, dos paradigmas cotidianos. Aplicada à web, que é o maior catalisador de modelos interativos, para onde convergem todos os experimentalismos da linguagem, das interfaces, a criatividade se torna-se o maior campo de atividade intelectual, criativa, cultural, artística e social existente.
2 - Uma característica muito importante para se atingir a criatividade envolve a motivação. Assim, os especialistas recomendam revermos freqüentemente os nossos sonhos e nossas metas pessoais e profissionais. Com sua experiência, é possível apontar o momento ideal para se fazer essa avaliação? E de que forma ela deve ser feita?
Definir metas e sonhos, para muitas pessoas, soa como se estivéssemos falando sobre algo irreal, algo fantasioso, infantil. Uma das razões disso talvez seja o fato de que, quando somos crianças, nossa mente é muito livre para conectar idéias, imaginar possibilidades. Mas com o passar do tempo vamos ouvindo a palavra NÃO, vamos sendo tolhidos, moldados, ajustados segundo um “zeitgeist”, uma consciência coletiva, como um “grande irmão” que nos vigia e nos repreende quando pensamos de forma diferente dos demais, quando questionamos os mecanismos culturais, sociais, políticos e econômicos, buscando a nossa identidade real.
Você sabe como se cria um circo de pulgas? Pegue um recipiente cilíndrico transparente, coloque lá algumas pulgas, e tampe com um vidro. Imediatamente as pulgas vão querer saltar para fora do recipiente, e nessa hora, acabam por bater suas cabeças no vidro. Depois de 1 ou 2 dias você já pode retirar a tampa de vidro e amestrar suas pulgas, porque elas nunca pularão para fora do recipiente! Porque, apesar de não haver mais a tampa, elas sempre pensarão que a tampa está lá. Assim acontece conosco também: depois de alguns fracassos pontuais, a maioria das pessoas acaba criando uma “tampa de vidro”, e passam, como defesa contra o medo de se frustrar novamente, a não acreditarem que o sucesso é possível, que alcançar um diferencial, “saltando mais longe”, é ilusão e assim, melhor ser pessimista (ou “realista”, um eufemismo) do que otimista.
Quero dizer que, se num passado recente você tentou planejar o presente e o futuro, definir objetivos existenciais, então ao invés de se frustrar, é preciso despertar e praticar nossa sinceridade e nossa fé. Sinceridade para reconhecer sem superestimar ou subestimar a realidade dos fatos, a nossa responsabilidade para com a situação; Fé, para manter inabalável a crença em nós mesmos, ou naquilo em que acreditamos e dá sentido à “bússola de interesses”, sentido que nos guia em direção aos nossos objetivos mais primordiais.
Certa vez uma pessoa chegou na rodoviária e foi comprar uma passagem. Chegando no guichê, disse: “quero uma passagem.”. O vendedor perguntou: “pra onde?”. Ele respondeu: “sei lá, pra qualquer lugar”. Essa história exemplifica a falta de metas específicas na nossa vida. Precisamos saber pra onde vamos e se realmente queremos chegar lá, e pra isso, temos que aumentar nosso controle sobre a tal ‘bússola de interesses’, o lugar na mente onde ficam as informações mais preciosas sobre as nossas vidas: do que gostamos e o que queremos – os nossos sonhos e metas. Se não fazemos essa avaliação diariamente, só iremos descobrir, muito tempo depois, que superestimamos ou subestimamos determinada crença ou valor que deveríamos ter abandonado ou adquirido. Revendo metas e sonhos, podemos aumentar a coerência entre o que somos e o que fazemos.
3 - Em palestra realizada durante o 10º Encontro de Webdesign (www.arteccom.com.br/encontro), você analisou a síndrome da tela branca, momento no qual muitos profissionais esperam pelo "surgimento" da criatividade e que acaba acarretando, muitas vezes, no bloqueio criativo. Quais são os caminhos para se evitar tal bloqueio?
A tela branca representa o AGORA, a responsabilidade da ação. Não dá pra fugir dela - se correr, o bicho pega - você perde o cliente - e se ficar, o bicho come - você é nocauteado pela tela branca.
Todo esse medo, essa sensação de náusea, de estômago embrulhado que todos nós temos quando colocados à prova, nos faz ficar tensos, por causa do medo, do receio de nos deparar com questões existenciais mal-resolvidas, medo de descobrir que superestimamos a nós próprios. Por isso, a primeira coisa a se fazer, antes de tentar resolver um conflito, um bloqueio criativo, é se auto-aceitar, aceitar a situação, respirar fundo, tentar acalmar o coração e a mente. O relógio interior não pode correr no mesmo timing do relógio do mundo na hora da criação, o timing da nossa vida é que tem que dar as coordenadas para o tempo do mundo, das coisas.
Todos sentimos medo, mas nem todos conseguem lidar com esse sentimento de maneira positiva. O medo humano é um mecanismo feito para nossa proteção, nosso senso de auto-preservação. O problema é que ele facilmente se transforma num monstro gigante quando estamos desesperados. E como iniciaremos um trabalho criativo estando totalmente desestimulados? Primeiramente, respirando fundo e nos dedicando a uma procura sincera pelos motivos reais do bloqueio. Enquanto não estivermos mentalmente, espiritualmente prontos, será IMPOSSÍVEL criar algo de qualidade, é melhor nem tentar. Portanto, dediquemo-nos a uma auto-avaliação sincera, mesmo que isso não seja algo agradável, a princípio. Mas é um grande remédio contra o MEDO.
É verdade que gostaríamos mesmo é que a criatividade fluísse de nós ‘automagicamente’? Primeiro, porque dói. Isso mesmo, dói. Expressar criatividade através da comunicação visual é solucionar um problema, é conectar possibilidades mnemônicas com valores lógicos (e pior, subjetivos!), charadas, codificando e decodificando informações, Porque, ao longo da nossa vida, no nosso dia-a-dia, deixamos de fazer algumas coisas em prol de fazermos outras. Nesse momento entra em ação a nossa ‘bússola de interesses’, que define DO QUE GOSTAMOS, O QUE QUEREMOS, valores que mudam a todo instante e que vão definir se você vai ou não sair da sua ‘Zona de Conforto’ em prol desse objetivo.
Não existem atalhos fáceis para se conquistarem resultados satisfatórios, na vida e no webdesign; eu diria até mesmo que para se atingir a felicidade, o prazer da superação, da vitória, é preciso que entendamos o fato de que não existe ganho, sem dor. Ou ainda “não existe almoço grátis”
A simplicidade do esforço adequado, nas atividades corretas, faz com que todo o sofrimento se transforme em catarse quando você perceber, nitidamente, que depois da “dor” - pesquisa, autocríticas, esboços, leituras, estudos, etc - do esforço de auto-transformação, vem o prazer, a satisfação impagável da auto-estima. Não se engane, sem auto-estima não temos vontade de fazer quase nada bem-feito, que tenha diferencial. Por isso mesmo que normalmente nossos bloqueios criativos acontecem, quase sempre, quando estamos confusos mentalmente, psicologicamente.
Se não tivermos coragem para estar frente a frente com nossos bloqueios, entendendo-os e acabando com ele na raiz, nas causas, não vai adiantar sair pra ver um filme, ler um livro, ir ao teatro, namorar, etc. Exatamente como acontece com as pessoas que pensam poder eliminar seus problemas virando um eremita, morando numa montanha longe de tudo - o problema vai continuar dentro delas.
Outra maneira de vencer o medo é possuir ferramentas afiadas, isto é: buscar o know-how técnico, adquirido pela leitura de livros formativos, participação em fóruns, em cursos ministrados por instituições qualificadas e muitas lidas no Help de programas, representam os INTRUMENTOS de que um webdesigner precisa para realizar plenamente as suas atividades criativas. Mais do que ser programador, animador, fotógrafo, pintor, redator, seja o que for, o designer precisa se lembrar de que antes de tudo, é um COMUNICADOR VISUAL – queira, ou não queira. Não vai adiantar nada uma técnica primorosa e uma capacidade de comunicação mínima. E vice-versa: uma boa capacidade de comunicação pode ir por água abaixo se não houver ferramentas capazes de expressá-la.
Seja qual for o método escolhido para superar o bloqueio, um critério é válido universalmente: não devemos aguardar o ‘momento ideal’ para se desenvolver o trabalho, porque, mesmo que esse momento existisse, você não saberia distingui-lo. Isso porque a nossa idéia de momento ideal é quando a solução – muito mais do que um simples layout – surge como num passe de mágica, pronto, na sua mente. Mas isso raramente acontece, e de fato, é preciso rever aquela charada do ‘ovo e da galinha’ – quem veio primeiro? - e perceber que, enquanto não começamos, estamos deixando trancado dentro de nós, travado, preso, o poder criativo, que fica inibido quando demonstramos demonstração, insegurança, para nós mesmos. Esse é o paradoxo da criatividade: se você não começar a produzir, ela não surge; se ela não surgir, você não começa a produzir. Por isso tudo, é melhor, com ou sem ‘inspiração’, colocar a mão na massa. Essa atitude, de fazer primeiro e perguntar depois, mesmo sem motivação, é boa em todas as circunstâncias:
4 - Nesta mesma apresentação, você revelou o uso do esforço sinergético como uma boa metodologia a ser aplicada em um processo de criação. Em que consiste este modelo e de maneira ele pode ser aplicado no design para web?
É a engrenagem que vai fazer a criatividade se manifestar, é a metodologia que ajuda a colocar os nossos mecanismos criativos em ESFORÇO CORRETO, gerar o desejo REAL de se fazer a criação. Com esse Esforço Sinergético – metodologia formada por etapas intercaláveis de criação e desenvolvimento, vamos sentir de maneira consciente, que estamos conectando idéias, gerando metáforas visuais com mais fluidez e desejo, lidando com significados, significantes e conexões simbólicas de modo harmonioso.
O conjunto original é formado pelos seguintes itens:
- Brainstorming: Aqui se registra qualquer fragmento de idéia ou comentário que seja pertinente ao projeto, ou qualquer outro tipo de registro emocional/criativo. É uma área livre, aqui não existe culpa nem medo, apenas liberdade total.
- To Do List: Aqui se definem os elementos de comunicação visual que você acha que vai usar, e também se registram os testes visuais que se fizerem necessários. É um lugar de se tomar decisões rápidas e de grande importância. Aqui você vai descartar ou aceitar idéias.
- Apresentação: Escrevendo um relatório completo sobre o seu projeto, você prepara terreno fértil para suas idéias brotarem. É preciso que a finalidade de todas as suas ações esteja bem definida, pois, assim, você fica mais confiante no trabalho, ao verificar que está agindo de acordo com a proposta. Posteriormente esses registros poderão ser muito úteis quando você apresentar o fruto do seu trabalho.Você usa a apresentação na para criar o projeto e a aproveita depois na hora de apresentar o trabalho. Uma necessidade básica.
- Estudo de referências: Registro visual e textual (se possível) que mostram caminhos usados por outros webdesigners para vencer desafios em situações semelhantes às que o seu projeto apresenta.
- Seu arquivo de layout: É a tela do seu ambiente de criação, de desenvolvimento; seu programa de ilustração, composição, 2D ou 3D, onde você vai registrar todos os seus layouts, do primeiro ao último. Esteja pronto para criar de 3 a 10 layouts evolutivos durante o processo de criação. Para entrar aqui, você precisa estar pronto para testar alguma idéia ou já ‘colocar a mão na massa’, criando os elementos da interface.
Com o Esforço Sinergético, sintetizei parte da minha metodologia para que outros profissionais também pudessem experimentá-la em suas realidades. O método é bastante simples, formado por 5 atividades – em princípio comuns – seu segredo está, não em técnicas mirabolantes, exóticas, e sim, na sua natureza utilitária e na maneira de se pensar a metodologia, sem linearizar o processo, aumentando a própria mobilidade sensorial, percebendo o todo, transitando caoticamente por entre as etapas, deixando-as direcionar seu próprio rumo.
5 - Dentre as etapas do esforço sinergético (apresentação, brainstorming, todo list, arquivo de layout e estudo de referências), você recomenda que o profissional inicie esta metodologia pela apresentação, uma espécie de produção de um relatório minucioso de um projeto. O que deve ser relatado nesta etapa e quanto tempo ela deve consumir do período total destinado ao processo de criação?
A sugestão para se iniciar pelo item “Apresentação” é uma dica para quando a auto-confiança e o desejo de realizar o projeto parecem ter desaparecido, dando lugar a pensamentos sempre negativos. “Apresentação” é um item é absolutamente racional, priorizado justamente porque, nele, a inteligência cartesiana, a lógica, entram mais facilmente em atividade, digamos, “forçada”, permitindo dar partida no projeto, organizando nosso plano de ação. Á medida em que vamos, dolorosamente, escrevendo as primeiras linhas, o desconforto vai desaparecendo e dando lugar a um entendimento maior da questão, gerando auto-confiança.
Iniciar por esse item, permite planejar o tempo de desenvolvimento de um projeto visto sob uma ótica integral, deixando de pensar em layout como quem senta num programa de ilustração, ou diante de uma tela de pintura, e começa a pintar/desenhar. Isso representa apenas uma etapa do processo. É preciso que, antes de iniciar a criação, façamos uma previsão de tempo pra cada etapa necessária, incluindo criação da arquitetura de informação, definição de objetivos, levantamento de metas específicas a serem alcançadas, ou ainda conclusões/pré-conclusões - pressupostos idealizados no decorrer do projeto. Quando temos uma percepção realista do tempo disponível, organizando-o em etapas defininidas, ficamos mais conscientes das possibilidades e assim, poderemos iniciar o processo criativo trabalhando simultaneamente em várias frentes. É como se déssemos o pontapé inicial: a partir do momento em que o projeto passa a “viver”, ele deixa de ser apenas uma idéia flutuando sob nossas cabeças, ganhando movimento, força. Assim, com esse impulso propulsor, as demais atividades começam a tomar vida própria também.
Na prática, o esforço sinergético permite que para cada estado gestáltico (no sentido psicológico, nosso status psico-emocional) – optemos por uma das atividades selecionadas; aliás, essa habilidade é determinante para que o processo seja sempre individual, ajustado para cada perfil e cada realidade.


Um comentário:
GENIAL, kerido! Amei! Parabens!!
Eu estava mesmo precisando dessa ajuda, essa entrevista clareou muuito minhas ideias. Sou designer mas ha 1 mes de fato entrei num estudio de web pra, pela primeira vez, trabalhar como uma. Mas senti minha criatividade se esvaindo aos poucos e fui eu buscar o pq e percebi q se eu nao alimenta-la é claro q ela vai se esgotar!
Tenho um blog tb. Isso foi de grande importancia pra minha vida.
Grata!!!!
Abraços com carinho e muito sucesso nas suas realizações maravilhosas. Maira.
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