domingo, 24 de agosto de 2008

Videoarte - 43,70

O mundo atonal de formas e cores proposto por Alexander Calder em suas esculturas influenciou sobremaneira a criação de uma atmosfera que desconsidera os paradigmas do mundo real, optando por uma abordagem lúdica no deslocamento dos objetos e no diálogo entre eles.

Com objetos comprados em uma "loja de R$1,99", cenários hipersaturados e personagens não-identificáveis vão se compondo e se decompondo, sugerindo e desfazendo supostos entendimentos sobre a cena exposta.

Custo total da produção e compra dos objetos = R$43,70



Não tenho dúvida alguma quanto ao fato de que Marco Tulio Resende foi um dos meus melhores e mais admiráveis professores, no curso de Artes Plásticas, da Escola Guignard (UEMG). Tive a grata felicidade de estudar dois períodos com ele, na disciplina de expressão bi-tri; momentos que, tenho certeza, foram riquíssimos para todos os colegas, tanto em debates quanto em produção artística.

São duas as minhas principais lembranças; a primeira delas, inclusive, inspirou-me para o fechamento da minha palestra atual ("Flashback!"), que fala sobre as nossas "Caixas de Pandora", figura de linguagem que remete ao mito original, grego. É preciso que tenhamos muita sinceridade para conosco, tanto para compreender a ATRAÇÃO quanto a REPULSA. E Marco Túlio propunha exercícios maravilhosos de busca interior, para que viajássemos por entre territórios abandonados e medonhos, e expressássemos tanto verbalmente quanto não-verbalmente, as nossas respostas internas.

A outra lembrança foi uma visita que fizemos ao centro da cidade, passando por lojas de 1,99 e comprando tudo quanto era tranqueira que passasse pela nossa frente. Era um exercício assumidamente dadaísta: deslocamento da idéia de "material ideal" para a arte, utilizando objetos que em princípio não foram fabricados para essa finalidade. Lembrando Rauschemberg - que passeava ao redor do quarteirão de sua casa, em New York, recolhendo "pré-objetos", materiais que ninguém queria, sucata, lixo - os alunos foram convidados por Marco Túlio para criarem qualquer trabalho utilizando o nosso, então, novo arsenal de criação. Lembro-me de que no dia da apresentação, impressionou-me o fato de que cada trabalho era COMPLETAMENTE distinto, e a esmagadora maioria desses trabalhos possuía um magnífico discurso conceitual ao mesmo tempo que impressionava pela qualidade plástica. Esse vídeo, "43,70" foi a minha resposta ao exercício proposto.

Para finalizar, um pequeno texto do próprio Marco Túlio Resende, falando um pouco sobre si:

"Minha poética é fruto de tudo que encontrei, toquei, deixei, perdi e sonhei; meu veneno e meu antídoto: nascimento por fórceps, descobertas lúdicas da infância, visões da morte, gestos não correspondidos, paixões avassaladoras, abandonos, emanações. Tudo é apenas ir e vir e como num palimpsesto, faço, desfaço e refaço, duvido e desconfio, avanço e paro quando me saturo: sou pelos excessos. Gostaria que meu trabalho fosse apenas isso: meu rastro e meu selo; e que fosse forjado na mais sincera nudez."

2 comentários:

Carlos Bragatto disse...

Gaz, é intencional o video parecer como se fosse feito ou editado num ZX Spectrum? As cores parecem muito com a palette do Speccy, cores fortes, contraste forte.

Ronaldo Gazel disse...

Cara, que interessante essa observação! Acredito que as cores estejam lembrando a paleta do Spectrum porque no processo de saturação os tons médios se perdem, gerando apenas cores chapadas, sem retícula. Era exatamente da mesma maneira como se comportavam as paletas oldskool. Curiosamente as cores estão muito mais pra paleta do spectrum do que pra do apple, por exemplo. Legal, isso!

De toda forma, a saturação era simplesmente para fazer com que se perceba o vídeo em um ambiente que não remeta à realidade, reforçando a idéia de "atonal" que o vídeo tenta trazer.

Abraço!

GAZEL